Tragédia e glória de uma mulher

Tragédia e glória de uma mulher

Postado em:
Blog - Não-ficção
- 06/04/2017 13:04:56

Por Daniel Louzada

O livro que inspira o filme que estreou em 22 de abril desse ano nos Estados Unidos poderia pertencer à ficção ou, talvez, à ficção científica. A vida imortal de Henrietta Lacks, da jornalista Rebecca Skloot, no entanto, é a história real de uma pessoa como tantas que viveram no século XX; a extraordinária história de uma mulher comum.

1951. Henrietta Lacks, uma norte-americana negra e pobre, vai ao hospital Johns Hopkins na cidade de Baltimore, estado de Maryland, alegando sentir um “caroço” no útero, algo de que reclama há mais de um ano com parentes. Examinada pelo ginecologista, comprova ter um tumor cervical.

Lacks vai ao Hopkins várias vezes nesse ano para submeter-se à radioterapia. O diagnóstico não é preciso, o que influi no tratamento recebido. Objeto de contínua negligência, em junho, apesar de seus sintomas, os médicos afirmam que ela está bem. Isso um mês antes de, no mesmo hospital, informarem que não há mais nada a fazer. Em 4 de outubro de 1951, Henrietta Lacks, invadida pelo câncer, morre. Aos 31 anos, deixa cinco filhos.

2011. Linhagem celular mais utilizada para pesquisa no mundo, se enfileiradas, as HeLa dão algo como três voltas na Terra. A partir delas, boa parte das descobertas e experimentos científicos pôde ser realizada. A lista é longa. Incluam-se aí coisas tão diferentes quanto vacina contra a poliomielite, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro, desenvolvimento de remédios, testes de produtos e impacto da gravidade no homem.

Primeiras células ”imortais”, as HeLa caracterizam-se pela capacidade de sobrevivência e expansão ilimitada. Após décadas de tentativas em laboratório, uma vez colocadas num meio de cultura duplicam em 24 horas. HeLa foi o nome dado às células cancerígenas extraídas de Henrietta Lacks, sem seu conhecimento ou de seus familiares, naqueles dias no hospital Johns Hopkins.

Publicamente ignorada, a história que Skloot conta era desconhecida mesmo nos meios acadêmicos. Afinal, quem foi a mulher por trás das células? Em que contexto social tudo isso aconteceu? Quais as relações entre ciência e sociedade no período?

O panorama revelado é surpreendente. Embora se trate de assunto científico, com o consequente uso de terminologia médica, o que dá o tom da obra é uma espécie de biografia de Henrietta Lacks e de seus filhos. Isso configura o cenário das relações raciais nos Estados Unidos.

Os Lacks foram mais uma das famílias negras descendentes de escravos que cultivaram tabaco nos campos do estado da Virgínia. Pressionados pelas dificuldades econômicas, aos poucos quase todos se mudaram para centros industriais, inclusive Henrietta na década de 40. A trajetória dos Lacks foi similar a de outras famílias negras e pobres da época: aperto financeiro, muitos filhos e ocasional envolvimento de alguns membros com o crime.

Retirar a névoa da história das células HeLa foi também ir a fundo na relação com a família Lacks e a escritora revela o processo de construção do livro nessa perspectiva. Muitas vezes conflituosa, a interação com os filhos de Henrietta ganha relevo. Eles sempre se sentiram ludibriados pelos brancos, sem direito a conhecer o que aconteceu com as células da mãe e por isso foram refratários à aproximação de Skloot.

Somente em 1973 os filhos ouviram a história das células pela primeira vez e até mais ou menos essa data os cientistas envolvidos na extração do tecido de Henrietta Lacks atribuíram o nome HeLa a uma fictícia Helen Lane. A contradição entre a importância da mãe para a ciência e o fato de nenhum deles ter sequer um seguro-saúde corroborava a sensação de injustiça dos negros norte-americanos.

A autora relata, nesse sentido, episódios sobre a utilização de pobres e negros de enfermarias públicas, presídios e entidades psiquiátricas como cobaias de experiências científicas e procedimentos médicos não autorizados que expunham a infecções e à morte. Lembre-se que até a década de 60 ainda havia forte segregação legalizada em vários estados dos EUA.

Utilizar o que seria parte do corpo de um indivíduo sem seu consentimento para conduzir experimentos e, eventualmente, lucrar, é o principal tema do livro. Objeto de disputa judicial nos Estados Unidos e com um crescente movimento de ativistas pelo direito dos pacientes à informação, o fato é que tecidos humanos já produziram bilhões de dólares e que os lucros resultantes foram apropriados, mas não por seus doadores, voluntários ou não.

Sentenças contrárias aos pacientes basearam-se na justificativa de que a prevalência da decisão individual criaria entraves à pesquisa científica, ao incentivo econômico para fazê-la que naturalmente existe sob o capitalismo. Argumento questionável já que o enfoque puramente mercantil também pode inibir o avanço da ciência.

O caso das patentes de genes ilustra bem o imbróglio: não se trata de bloquear o acesso a uma invenção, mas a um gene único que, por exemplo, provoca determinado tipo de câncer. Quem controla a propriedade desse gene controla todas as pesquisas, testes e novas terapias para o câncer a que ele se vincula. Ou seja, a distância entre viver e morrer resume-se a pagar o preço certo.

A vida imortal de Henrietta Lacks saiu em 2010 nos Estados Unidos em 2011 no Brasil, pela Companhia das Letras. Agora, por conta do filme estrelado por Oprah Winfrey, volta a ser tema de discussão. Sua leitura é uma grande oportunidade para se refletir sobre as implicações do debate científico contemporâneo. A epígrafe escolhida por Rebecca Skloot, do escritor romeno de origem judaica Elie Wiesel, traduz o espírito da coisa: “Nenhuma pessoa deve ser encarada como uma abstração. Antes, é preciso enxergar em cada pessoa um universo com seus próprios segredos, com seus próprios tesouros, com suas próprias fontes de angústia e com certa dose de triunfo”.

*O livro está disponível e em oferta para os assinantes do Clube Da Vinci.