Taverna, uma livraria que virou a editora de Úrsula

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Blog - Indie
- 22/11/2018 12:48:14

1. Vocês poderiam contar a história da Livraria Taverna e sobre como surgiu a ideia de criar uma editora?

A Taverna começou suas atividades como livraria em 2014. Com o lançamento do seu primeiro livro, publicado em outubro de 2017, passou a operar também como selo editorial. A Editora Taverna propõe construir um catálogo de títulos que abordam temas urgentes, obras clássicas relevantes na contemporaneidade e, principalmente, procura visibilizar as novas vozes da literatura brasileira. Livros de autoras/es negras/os, LGBTs e outras minorias são alguns dos interesses da editora. Úrsula é o seu terceiro livro publicado, e atualmente possui outros três projetos de edição em andamento para serem lançados em novembro deste ano, durante a Feira do Livro de Porto Alegre.


2. O livro do plano Indie.spensável do Clube Da Vinci para este mês foi Úrsula de Maria Firmina dos Reis. Por que editar esse livro publicado originalmente em 1859? Qual a importância de ler Ursula nos dias de hoje?

Esquecido pela crítica e desconhecido pelo grande público, Úrsula (1859), da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, passou mais de um século sem receber novas edições. Em 1962, o pesquisador e bibliófilo Horácio de Almeida encontrou o romance Úrsula em meio a um lote de livros usados, comprado por ele em um sebo do Rio de Janeiro. O romance chamou sua atenção pelo fato de ser assinado por Uma maranhense, e logo a curiosidade sobre a identidade da autora tornou-se um longo trabalho de pesquisa, que durou mais de uma década, devido à ausência de registros sobre a obra na historiografia literária brasileira. Para a pesquisadora Luiza Lobo, esse exemplar encontrado por acaso era o único remanescente da edição original, publicada em 1859.

Apesar do relativo sucesso obtido em seu tempo, Úrsula passou mais de um século sem receber uma nova edição. Maria Firmina dos Reis, identificada como a autora do romance, enfrentou um processo de exclusão e esquecimento na literatura nacional. Maria Firmina lança um novo olhar, inédito em sua época, para a questão da abolição. Escrito antes mesmo do poema Navio negreiro (1869), de Castro Alves, e de A Escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, a narrativa de Úrsula não é construída do ponto de vista eurocêntrico, como era comum na literatura de seu tempo, mas justamente pela perspectiva dos próprios oprimidos, dando voz às mulheres, aos negros e escravos, além de denunciar a opressão do sistema patriarcal. 

Procuramos criar um projeto de publicação à altura desta importante obra da literatura brasileira, não apenas em termos estéticos, mas principalmente no cuidado minucioso com o texto. Embora tenhamos atualizado o texto de acordo com a nova ortografia da língua portuguesa, optamos por manter características específicas do romantismo e da escrita firminiana.