Quando éramos reis

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Blog - Livros
- 23/11/2018 15:20:31

Quando éramos reis

Daniel Louzada

Reza a lenda que em outubro de 1894, vindo da Inglaterra, o jovem Charles Miller desembarcou em São Paulo com dois balões de couro destinados à prática de um esporte desconhecido nessas terras: o football. Se esse pioneirismo cabe às escolas católicas, que introduziram a modalidade pouco antes por aqui, o certo é que no final do século XIX o Brasil começou a se constituir como o país do futebol.

Inicialmente praticado pela elite econômica em clubes tradicionais, o futebol relegava pobres e negros à margem. Sem dinheiro para a bola, os uniformes e sequer para os ingressos das partidas, eles espichavam os olhos por cima dos muros que separavam os primeiros campos da rua. Vivia-se o tempo do match, do referee, do field.

A bola de meia foi o artefato que introduziu a massa no universo do esporte bretão. Curtida por pés descalços, nos campos improvisados da várzea, gerou um estilo peculiar de movimentar o corpo no jogo. O “divertimento de dar pontapés”, como diria Lima Barreto, logo caiu no gosto popular. 

Para atuar pelos clubes consagrados, muitos jogadores tiveram que tomar banhos de pó de arroz, como Carlos Alberto, o célebre atleta mulato do Fluminense. Times pioneiros como a Ponte Preta, o Bangu e o Vasco da Gama, no entanto, abriram as portas para o Brasil real, um país mestiço e sem cintura dura. Gradualmente superada, a segregação social e racial deu lugar a um novo jogo.

 Memoráveis craques tornaram-se símbolos do que passou a se identificar como futebol brasileiro nas décadas seguintes. Friedenreich foi a primeira estrela, a maior dos tempos de amadorismo, um grande goleador. Seguiram-no gigantes como Fausto dos Santos, Domingos da Guia, Leônidas e Zizinho.

Em pouco tempo, o Brasil possuía o melhor futebol do mundo. Ainda assim, alimentava-se a ideia de que, apesar disso, a seleção nacional seria incapaz de vencer nas horas decisivas por conta de uma suposta impotência civilizatória, que se manifestaria também no esporte. A ginga brasileira teria seus limites.

Por mais absurda que pareça, essa crença foi repetida durante algum tempo e teve um episódio emblemático no dia mais silencioso jamais visto em um estádio: o dia em que a pátria foi esbofeteada pelo uruguaio Obdúlio Varela e caiu de joelhos diante de Gigghia, em 1950, no Maracanã. 

Quanta tinta e papel foram gastos para decantar o fracasso? Até a cor da camisa da seleção foi trocada. Mas não há dor eterna, o tempo comprova. Logo, em 1958, uma nova geração surgiu para registrar em cartório o melhor futebol do mundo: Didi, Nilton Santos, Pelé – gênio transcendente, imperador da geografia campal – e o cambaio Garrincha, a única utopia moderna realizada.

Muitos títulos vieram depois; assim como um longo período de jejum. Algumas equipes, como as seleções de 1970 e 1982, saíram do campo direto para a mitologia. Outras, elogiaram, com o chamado futebol de resultados, a feiura da retranca. Essas, e ainda na vitória, não foram amadas; porque o amor não combina com o tédio.

A Saraiva e a Nova Fronteira reuniram neste livro uma parte do melhor registro feito pela literatura brasileira sobre toda essa história. Em nosso time de primeira estão João do Rio, Coelho Neto, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Mário de Andrade, Mário Filho, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Rubem Fonseca e Luis Fernando Verissimo. Um time de primeira é um mergulho na arte do futebol, do futebol que jogávamos quando éramos reis.