Sobre o silêncio

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Blog - Ficção
- 10/07/2017 19:55:03

“Mesmo a vida mais modesta deixa alguma recordação”. Esse é o principal mote do livro de ficção do mês de junho, romance cujo enredo nos transporta para um universo onde tempo real e mágico se encontram para nos fazer lembrar de que somente a ficção pode flertar com a morte impunemente.

Todo objeto tem uma história e essa deveria ser a premissa de todo museu; no entanto, somente aos objetos de estirpe é concedido o direito à perenidade, o que provoca a ira da principal protagonista da trama, uma velha centenária, que se põe a coletar objetos cuja importância reside única e exclusivamente na íntima relação que os mesmos estabelecem com seus donos: pessoas simples e anônimas, moradoras de um vilarejo.

Também não sabemos o nome dos personagens, apenas conhecemos o vigor e a tenacidade de cada um deles; e isso é mais do que suficiente para que sejamos envolvidos nas teias do tempo do romance, e, nesse sentido, tenhamos nossa curiosidade aguçada, nossos corpos e mentes aprisionados por essa narrativa surpreendente e sedutora. Junto com os personagens construímos o tal museu, lugar em que o dispositivo intrauterino de uma prostituta tem o mesmo valor que o bisturi do cirurgião da aldeia, por isso ambos merecem que suas eternidades sejam catalogadas.

Quem nos apresenta a tudo isso é o museólogo contratado para dar conta do acervo mais inusitado da sua trajetória profissional, e nós leitores também partilhamos do seu espanto, da sua insegurança e hesitação diante da concretude desse universo tão insólito, que aparentemente convive em harmonia com o cotidiano da aldeia.

São muitas as metáforas que brotam das linhas e entrelinhas da narrativa: do tempo, da vida, da morte e da eternidade. Ora a lemos como construção de uma máquina do tempo que se alimenta do passado para eternizar o futuro, ora à luz da história de Ártropos, a velha fiandeira que corta o fio da vida do homem ocidental.

E por falar em ocidente, é importante destacar que, muito embora a trama seja ambientada em território indefinido, a cultura oriental se impõe como pano de fundo dessa narrativa de autoria japonesa. Essa indefinição geográfica nos possibilita uma interpretação mais universal das angústias do ser humano diante da passagem do tempo.

Como podemos classificar esse romance, se a cada página o prosaico nos prega uma peça e nos arremessa nos labirintos do improvável? Trata-se de uma narrativa puramente memorialística? Mas e a presença da morte que nos assombra desde o início? Estamos diante de um thriller policial? Busquemos as respostas.

Ao contrário do museólogo/narrador, que julga ser efêmera sua passagem por aquela aldeia centenária, a medida em que avançamos na leitura vamos adquirindo a certeza de que a nossa permanência no museu será eterna.


Georgina Martins possui Bacharelado e Licenciatura em Português/Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é Especialista em Teoria e Crítica da Literatura Infantil e Juvenil, Mestre em Literatura Brasileira e Doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ. Escritora de livros para crianças e jovens e professora de Literatura do Depto de Letras/Libras da Faculdade de Letras da UFRJ. Livros publicados: O menino que não se chamava João e a menina que não se chamava Maria, O menino que brincava de ser, Todos os amores, Meu tataravô era africano (DCL); No olho da rua: historinhas quase tristes, Uma Maré de desejos, Tal pai, tal filho?, Outros bichos (Ática e Scipione); Minha família é colorida (SM); Pequenas confissões (Positivo). Organizou o livro Literatura Infantil e Juvenil na Prática Docente (Ao Livro Técnico), Além das fronteiras: literatura, ensino e interdisciplinaridade (selecionado pelo programa de publicação de livros didáticos da editora da UFRJ - Coautoria); Teve o livro Uma Maré de desejos selecionado para o Programa de leitura e distribuição de livros às escolas da rede pública da Venezuela.