Luiz Felipe Campos: palavra do escritor

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Blog - Não-ficção
- 22/11/2018 12:41:56

Caro leitor,

A história que você lerá a seguir “é tudo verdade” — como diz o famoso festival de documentários. Aconteceu no Brasil, há não muito tempo, e alguns de seus personagens ainda estão vivos. É resultado de uma pesquisa de mais de cinco anos, com mais de uma centena de horas de entrevistas, de modo que, sempre que incorrer no impulso involuntário de lê-la como uma ficção (há tantos romances de espionagem no mundo), você deverá se lembrar: não é.

Insisto nisso porque acredito que, graças à iniciativa do Clube da Vinci, este livro-reportagem chega às suas mãos em boa hora. Afinal, no momento em que escrevo este texto, os que somos democratas por convicção — e não de ocasião — temos todos os motivos para estarmos preocupados. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial mais importante em muito tempo, uma candidatura desavergonhadamente fascista, orgulhosa de toda a sua estupidez, lidera as pesquisas. E ainda que não vença, essa candidatura, por si só, já é um enorme monumento à nossa ignorância e falta de memória. 

Por isso, correndo o risco de me tornar repetitivo, sinto-me no dever de alertar uma última vez: nada do que você lerá é fruto da imaginação do autor. Houve, de fato, uma operação policial minuciosamente planejada, houve um agente-duplo infiltrado no seio de uma organização guerrilheira, houve o assassinato de quatro homens e duas mulheres — uma delas era companheira do policial infiltrado —, houve a modificação da cena do crime para dar aparência de tiroteio às execuções a sangue frio, e houve também a perseguição dos familiares das vítimas mesmo anos após o caso. E, como o leitor haverá de constatar, ainda hoje há quem sofra as consequências deste episódio que ficou conhecido como “O massacre da granja São Bento”. 

Pois é esta a matéria-prima do jornalismo: as histórias de pessoas reais, com motivações, habilidades e fraquezas que as individualizam no mundo. Lugares-comuns e idealizações são tentações que lhes roubam o que têm de mais precioso — sua própria humanidade, nem sempre coerente, muitas vezes violenta, mas sempre assombrosamente real. Por isso espero que, ao ser apresentado a alguns dos personagens deste livro, o leitor possa se identificar com suas histórias e paixões. Essas, quem sabe, quando bem enredadas umas às outras, deixando de ser linha para se tornar tecido, nos deem a oportunidade de fitar, de relance, a História.

Boa leitura,

Luiz Felipe Campos